Água de clínica onde 35 passaram mal estava contaminada, diz laudo

A Vigilância Sanitária e Ambiental de Goiânia  informou que um laudo feito por uma empresa particular e divulgado nesta quarta-feira (13) concliui que houve contaminação da água usada na clínica onde 35 pacientes passaram mal enquanto faziam hemodiálise, em Goiânia. O órgão, no entanto, ainda apura a real causa do surto, que pode estar ligado a tratamentos de desinfecção feitos no dia anterior pela unidade de saúde.

O estabelecimento é a Nefroclínica, localizada no Setor Jardim América. O problema ocorreu nos útlimos dias 4 e 5 de julho.  Das pessoas que sofreram reações, um idoso de 84 anos morreu horas depois do procedimento, três pessoas continuam em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), duas estão internadas em outras unidades de saúde e as demais tiveram alta

O gerente de fiscalização e projetos da Vigilância Sanitária, Dagoberto Costa, afirmou que foram encontrados “restos” de bactérias na água, que pode ter relação com o surto infeccioso. “O laudo apontou número de endotoxinas – que são membranas celulares de bactérias que sofreram morte celular – acima do normal na água”, afirmou.

A Saneamento de Goiás S/A (Saneago) informou à TV Anhanguera que analisou duas vezes a água que abastece a clínica e os laudos apontaram que a qualidade atende aos padrões exigidos pelo Ministério da Saúde (MS). A companhia ressaltou ainda que não tem responsabilidade sobre os processos de tratamento da água para hemodiálise.

Como a clínica não notificou a situação às autoridades, deve ser multada. Costa salientou ainda que a Vigilância Sanitária investiga o que exatamente causou o surto infeccioso e que esta conclusão depende de investigações profundas do órgão. O gerente afirma que em alguns dos pacientes que passaram mal foram encontrados duas bactérias resistentes a antibióticos comuns – Burkholderia cepacia e Stenotrophonomonas maltophilia –, mas não há confirmação de como eles tenham sido contaminados.

“No exame de sangue de algumas pessoas, foram encontradas bactérias ambientais que, para nós, que estamos sadios, passa pelo nosso corpo e não acontece nada. Nos pacientes debilitados isso pode ser problemático. Na verdade, esses pacientes quando foram internados precisaram de antibióticos mais fortes porque elas apresentaram resistência aos medicamentos mais simples”, esclareceu.

Gerente da Visa, Dagoberto Costa, afirma que investigações sobre clínica continuam Goiás Goiânia (Foto: Vanessa Martins/G1)
Gerente da Visa, Dagoberto Costa, diz que investigações sobre clínica continuam (Foto: Vanessa Martins/G1)

Investigação
O gerente informou que o órgão  só soube do surto através de uma denúncia anônima feita no último dia 7 de julho, três dias depois que quatro pessoas já tinha passado mal. Ele destaca ainda que a clínica realizou um procedimento para desinfectar os equipamentos.

“Eles fizeram um tratamento do dia 4 para o dia 5. O que a gente está avaliando é se esse tratamento foi realmente efetivo, o que a gente acredita que não foi, e se houve procedimentos incorretos. No laudo do dia 4, deu qua a água estava normal. Já no laudo do dia 5, havia a presença de endotoxinas. Eles fecharam o atendimento no dia 6 e reabriram no dia 7 pela manhã, mas nós formos lá neste dia e pedimos para parar atendimento à tarde. No laudo do dia 8 que nós pedimos, [a água] já está normal”, afirmou.

O G1 tenta contato com a dona da Nefroclínica, Alessandra Naghettini, mas as ligações não foram atendidas até a publicação desta reportagem. No entanto a TV Anhanguera entrou em contato com ela, que não informou por qual razão não alertou a a Vigilância Sanitária sobre o surto.

Por não ter informado a respeito do surto, a clínica deve ser multada, uma vez que descumpriu determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “A principal não conformidade da clinica foi não ter alertado o controle, a Visa e a Anvisa. Então isso pode resultar em sanção para ela. Ela devia ter feito imediatamente e na verdade não o fez”, disse.

A aplicação da multa, conforme o gerente, ainda depende de investigações do órgão. Não há, um valor definido para a sanção caso ela seja realizada.

Reabertura
Ainda conforme a Vigilância Sanitária, para que o estabelecimento seja reaberto é necessário que o mesmo cumpra algumas exigências. Outro fator determinante para que o local volte a operar é a emissão de um laudo do Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen), que está previsto para ser emitido na sexta-feira (15).

“A primeira e mais básica exigência é um controle efetivo da qualidade da água da hemodiálise para retomada do atendimento aos pacientes. Em segundo lugar, a montagem de um núcleo de controle e segurança do paciente e todas as precauções como troca de alguns insumos que vinham sendo usados, troca de equipamentos e uma ciência total da vigilância quanto a esses procedimentos para retomada”, listou.

Alessandra Naghettini, proprietária da clínica, já havia expressado que tinha esperanças de reabrir o espaço até o final de semana. Ela explicou à TV Anhanguera que as medidas exigidas pelo órgão vão ser atendidas.

A Vigilância Sanitária confirmou que a clínica já realizou a maioria dos procedimentos requisitados, mas ainda falta entregar um “relatório técnico que comprove a confiabilidade das máquinas de hemodiálise”. Uma nova reunião deve acontecer entre a administração do estabelecimento, fabricantes dos equipamentos usados no local e a Vigilância para assegurar que a reabertura é segura.

Segundo Costa, o local atendia cerca de 200 pessoas. “Por causa do atendimento suspenso dessa clinica foi que sobrecarregou demais as outras clinicas da cidade, inclusive uma de Aparecida de Goiânia. Hoje a gente tem falta de tratamento adequado para toda a população que precisa de hemodiálise”, esclareceu.

Saúde diz que infecção atingiu clínica de hemodiálise onde 36 passaram mal em Goiás (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)
Idoso Fructuoso Rosa, de 84 anos, morreu horas depois de hemodiálise (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)

Processo rigoroso
O presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia em Goiás, médico Ciro Bruno Silveira Costa, disse que o protocolo de segurança para realização de hemodiálise é muito rigoroso. A água usada, inclusive, é essencial nesse processo.

“Este cuidado começa desde a chegada de água na clínica até a higienização de cada equipamento. É um processo bastante amplo que envolve muitas pessoas e várias etapas que, no final, garantem um tratamento adequado aos pacientes”, afirmou.

Morte
O idoso Fructuoso Ribeiro Rosa, de 84 anos, morreu um dia após passar pelas sessões no local. Porém, ainda não foi divulgado o laudo com as causas da morte.

A esposa dele, Auta Soares Rosa, disse que ele passou muito mal enquanto fazia a hemodiálise, procedimento que filtra e limpa o sangue de pessoas com problemas nos rins.

“Eu falei: ‘doutora, o que está acontecendo com ele?’ Ele não para de tremer, [está] com as pernas duras e gritando de dor. Todo mundo [passando mal] de uma vez, daquele jeito, eu nunca tinha visto. Espero que os outros se recuperem e volte porque isso é muito triste”, lembra, emocionada.

Filho do idoso, Eder Soares Rosa diz que o pai piorou a situação clínica de um dia para o outro. “Ele deu entrada por volta de 1h da manhã, mais ou menos. No outro dia cedo, o médico já nos chamou dizendo do quadro que era gravíssimo. O que estava sendo feito era o que estava ao alcance deles, mas o quadro era grave”, pondera.

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