Olímpico é entregue após 10 anos e custa mais que o dobro do previsto

Julho de 2006. Atenções voltadas para a Copa da Alemanha. Enquanto a principal competição do futebol mundial caminhava para seu desfecho, a bola estava parada no Brasil. Em Goiânia, o vácuo não ficou restrito apenas à paralisação do Campeonato Brasileiro. Um dos símbolos do esporte local, o Estádio Olímpico, inaugurado em 1941, foi demolido no dia 5 de julho para ser reformado como parte do projeto do Centro de Excelência, anunciado em 1999.

O que era para ser atração virou grande pesadelo para a população, especialmente a da região central de Goiânia, que sentiu de perto os reflexos do descaso, do abandono e do imbróglio judicial que arrastou a obra por 10 anos. Nesta segunda-feira, o Olímpico de Goiânia será reinaugurado em jogo festivo entre a seleção brasileira de masters e a seleção goiana, às 19h. Personalidades locais e ex-atletas também estarão presentes. O ingresso é 1 kg de alimento não perecível. O Laboratório de Pesquisa e Capacitação, um dos quatro módulos do completo, também está pronto.

Estádio Olímpico de Goiânia (Foto: Fernando Vasconcelos / GloboEsporte.com)
Estádio custou mais que o dobro do previsto (Foto: Fernando Vasconcelos / GloboEsporte.com)
Orçado inicialmente em R$ 43,5 milhões, o estádio custou mais que o dobro do previsto – aproximadamente R$ 95 milhões foram investidos após novo contrato e aditivos contratuais com a Porto Belo, empresa que ganhou licitação para retomar as obras em julho de 2013. De lá para cá, o governo de Goiás chegou a estipular o prazo de entrega, mas recuou. Uma das datas trabalhadas foi 24 de outubro (aniversário de Goiânia) de 2015, o que não foi cumprido. A última estimativa tinha sido 25 de julho de 2016.

Houve paralisação da reforma entre 18 de setembro e 7 de dezembro do ano passado, quando o governo alegou atraso no repasse do financiamento feito junto ao Banco do Brasil. Com a obra retomada no fim de 2015, o estádio voltou a tomar forma. São 13,5 mil cadeiras – parte delas coberta. Os refletores foram distribuídos em quatro chamativas torres de iluminação, com 40m de altura cada. Também foram instalados um novo placar eletrônico e uma pista de atletismo.

O velho Olímpico e a demolição

Estádio Olímpico de Goiânia - Goiânia rebaixado (Foto: O Popular)
Rebaixamento do Goiânia em 2006 foi o último jogo no Olímpico (Foto: Reprodução / O Popular)

O Olímpico é parte da história do futebol goiano. Tanto é que o Goiânia, terceiro maior campeão estadual e um dos clubes mais tradicionais de Goiás, participou da abertura e do último jogo oficial do estádio. No dia 3 de setembro de 1941, o Galo Carijó bateu o América-MG por 2 a 0, na inauguração. O primeiro gol foi de Ari. Mesmo com a construção do Serra Dourada, em 1975, o Olímpico continuou sendo utilizado pelos clubes da capital.

No dia 20 de março de 2005, o Goiânia perdeu para a Anapolina e foi rebaixado para a segunda divisão estadual. Esta foi a última partida oficial no estádio. O último clássico entre Goiás e Vila Nova foi no dia 27 de fevereiro do mesmo ano. O Tigre venceu por 1 a 0 com gol de Luciano . Pouco mais de um ano depois, no dia 5 de julho de 2006, o Olímpico começou a ser demolido.

O estádio é só um dos quatro módulos do Centro de Excelência. A primeira parte, a reforma do Ginásio Rio Vermelho, foi concluída em 2002. O ginásio recebeu muitas partidas do Universo Ajax, um dos times de ponta do basquete nacional no início do século XXI, mas atualmente está interditado por falta de laudo do corpo de bombeiros. O Parque Aquático, outro módulo do Centro de Excelência, também está com a obra interditada. Segundo a Agência Goiana de Transportes e Obras (Agetop), estes dois módulos devem ficar prontos no ano que vem.

Falha no projeto e batalha na Justiça

Restam o Estádio Olímpico e o Laboratório de Capacitação e Pesquisa, entregues nesta segunda-feira. O imbróglio judicial que se arrastou após a demolição do Olímpico está ligado justamente a estes dois módulos. Inicialmente, o estado lançou licitação única para as duas obras com orçamento previsto de R$ 40 milhões. Entretanto, durante a reforma houve divergência entre o governo e a Eletroenge, empresa licitada. Em 2009, a reforma foi paralisada. O governo alegou que o saldo contratual seria gasto sem que estádio e laboratório estivessem prontos.

– Gastaram muito para fazer a demolição e outras coisas. Mesmo que a gente tivesse executado 100% do projeto original, faltaria verba. Optamos por rescindir o contrato. Demorou justamente por causa disso. A ruptura deu origem à disputa judicial. Depois, fizemos uma nova licitação – diz Jayme Rincón, presidente da Agetop desde 2011.

Gastaram muito para fazer a demolição e outras coisas. Mesmo que a gente tivesse executado 100% do projeto original, faltaria verba
Jayme Rincón, presidente da Agetop

Em julho de 2011, a liminar que garantia à empreiteira o direito de continuar a obra caiu, abrindo espaço para duas novas licitações: uma para o Estádio Olímpico e uma para o Laboratório de Capacitação e Pesquisa. Jayme Rincón admite que o projeto inicial de 2002 fornecido pela própria Agetop já estava “defasado”. O Olímpico sequer receberia partidas de futebol. O novo projeto ganhou, entre outros itens, mais vestiários e cabines de imprensa. O valor mais que dobrou.

– O projeto é fornecido pela própria Agetop. Mas ele não era bom. Refizemos tudo, corrigimos os erros do projeto original, que era de 2002. Só tinham dois vestiários, não havia vestiário para juiz. Estava defasado. Nós mudamos o conceito do estádio e refizemos o projeto. Por isso, seria preciso uma nova licitação. A concepção original sequer previa jogos do Campeonato Brasileiro – afirma o presidente da Agetop.

O impacto do atraso e a retomada das obras

A ação do tempo foi implacável. Se a população não tinha alternativa a não ser esperar o fim do imbróglio jurídico e a retomada das obras, a natureza não perdoou o descaso. A paralisação da reforma transformou o Olímpico numa enorme sucata. Mato alto, água parada, estrutura metálica exposta e área abandonada. Receita mais do que pronta para gerar dor de cabeça na comunidade local.

Moradores da região central de Goiânia sofreram com o problema. O mais grave deles talvez tenha sido a proliferação de mosquitos como o aedes aegypti, transmissor de doenças como a dengue. Uma bomba chegou a ser instalada para remover o excesso de água, o que não resolveu o problema.

Em 2013, com dificuldades para receber recursos federais para retomar as obras do Centro de Excelência, o governo de Goiás assumiu a reforma e convocou nova licitação para o Estádio Olímpico. A convocação foi feita no dia 24 de julho com orçamento previsto de R$ 43,5 milhões. A construtora Porto Belo venceu a licitação para o Estádio Olímpico, e a construtora Milão assumiu o Laboratório de Capacitação.

Desde então, houve apenas uma paralisação entre setembro de dezembro de 2015. Segundo o governo, ela ocorreu devido ao atraso no repasse do financiamento feito junto ao Banco do Brasil. Em 2014, o valor firmado no ano anterior mais que dobrou depois de um aditivo contratual. A obra do novo Estádio Olímpico passou de R$ 39 milhões para quase R$ 95 milhões. No entanto, o custo ainda é maior levando em consideração o que foi feito e descartado antes da briga judicial.

– Nós tínhamos um contrato de R$ 10 milhões com a Caixa Econômica Federal, mas a burocracia para a liberação da verba era muito grande. Decidimos abrir mão. O orçamento subiu porque tivemos de refazer o projeto. Não dava para construir tudo com R$ 40 milhões. Estamos investindo num centro de formação de atletas, queremos que essa finalidade seja bem sucedida. O custo do Olímpico até passa de R$ 100 milhões porque muito do que foi investido no primeiro contrato foi perdido – revela Jayme Rincón.

Reforma - Estádio Olímpico - Goiânia 2012 (Foto: Reprodução / TV Anhanguera)
Olímpico virou depósito de lixo e água parada durante a paralisação da reforma (Foto: Reprodução / TV Anhanguera)

A estrutura do complexo e a nova administração

Ao contrário do Serra Dourara, o Olímpico não será administrado pela Agetop. O estádio e todo o Centro de Excelência serão geridos por uma Organização Social (OS), ainda não contratada – o governo estadual fará chamamento público para seleção da OS por entender que este é o “melhor modelo de gestão”. Só depois que a nova administração for definida o clubes de futebol poderão atuar no Olímpico. No Serra Dourada, eles repassam 10% da renda para a Agetop como taxa de “aluguel do campo”.

A capacidade do novo Olímpico é de 13,5 mil espectadores. O estádio poderá receber jogos da Série B já neste ano, desde que a nova administração esteja contratada. Se algum clube do estado subir para a primeira divisão e quiser atuar no local, será necessária uma autorização da CBF – a capacidade mínima de público para a Série A é de 15 mil pessoas. Quatro vestiários para atletas, dois para árbitros, 12 cabines de imprensa e 250 lugares de tribuna compõem o estádio, que terá ainda oito bares e estacionamento subterrâneo para 400 carros.

O complexo, formado também pelo Laboratório de Capacitação, entregue nesta segunda, pelo Ginásio Rio Vermelho e por um Parque Aquático, terá ainda alojamento para os atletas, com 150 vagas para homens e 150 para mulheres, refeitório, auditório para 200 pessoas, 14 salas de aula, academia e quadras de treinamento. O Laboratório de Capacitação contará com quatro pavimentos e um espaço destinado à biblioteca.

Estádio Olímpico de Goiânia foi inaugurado na década de 1940 (Foto: O Popular)
Estádio Olímpico de Goiânia foi inaugurado na década de 1940 (Foto: O Popular)
Olímpico em 2005, antes da reforma; estádio foi remodelado (Foto: Lailson Duarte / O Popular)
Olímpico em 2005, antes da reforma; estádio foi remodelado (Foto: Lailson Duarte / O Popular)
Estádio Olímpico de Goiânia (Foto: Fernando Vasconcelos / GloboEsporte.com)
Remodelado, Estádio Olímpico de Goiânia será reinaugurado nesta segunda-feira (Foto: Fernando Vasconcelos / GloboEsporte.com)
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