Após declarar vitória, governo da Catalunha promete independência

MADRI — Os independentistas ganharam a guerra da imagem. Uma velhinha, caída no chão do colégio Freire, no bairro de Roquetes, em Barcelona, com os cabelos brancos ensanguentados, foi a primeira de uma jornada marcada pela tensão em cada ação da Polícia Nacional e da Guarda Civil para impedir a realização do referendo unilateral de independência, suspenso de maneira cautelar pelo Tribunal Constitucional. O saldo foi de 844 feridos. Do total de 5,3 milhões de eleitores, o governo catalão contabilizou 2,2 milhões de votos, dos quais 2 milhões foram pelo “sim”. E antes mesmo da apuração, Carles Puigdemont, presidente catalão, deu por vitorioso o referendo, e abriu caminho para a declaração de independência unilateral. Grandes sindicatos e organizações sociais convocaram uma greve geral para terça-feira.

Em coletiva de imprensa, Puigdemont afirmou que nos próximos dias entregará os resultados da votação ao Parlamento catalão para que proceda conforme reza a Lei do Referendo. Ao mesmo tempo, mostrou-se receptivo a negociações.

— Ganhamos o direito a ser um Estado independente. O caminho a partir de agora temos que fazer juntos, com civismo e em paz, abertos a propostas de diálogo, que sirvam para respeitar a vontade dos catalães — afirmou, pedindo a mediação da UE e agradecendo a conduta da população. — O governo espanhol escreveu uma página vergonhosa em sua relação com a Catalunha. Lamentavelmente, não é a primeira. Este já não é um assunto interno. É um assunto europeu. 

SEM INTERNET NOS CENTROS DE VOTAÇÃO

A apuração demorou mais do que o esperado, já que o sistema construído para a ocasião ficou inutilizado depois que a Guarda Civil cortou a conexão à internet de vários centros de votação. A presidente do Parlamento catalão, Carme Forcadell, convocou para hoje uma reunião para determinar a ordem do dia do próximo plenário. Mas analistas acreditam que o resultado seja o menos relevante:

— O resultado não tem importância. É o de menos. Houve urnas apreendidas, colégios fechados… As imagens, além de evidenciar a violência policial, mostraram uma enorme quantidade pessoas indo votar. O governo central perdeu este referendo — opinou o cientista político Oriol Bartomeus, professor da Universidade Autônoma de Barcelona e da Universidade de Barcelona.

A cena de um idoso sendo arrastado pela orelha por um agente da Policia Nacional foi outra das várias demonstrações de brutalidade. Ele estava sentado no chão da escola Víctor Català, em Barcelona, junto com dezenas de outras pessoas que entoavam o grito “votaremos”. A intenção era impedir o confisco das urnas. Dos 2.315 colégios eleitorais, a polícia interveio em 319, segundo o governo central — ou 336 de acordo com os Mossos D’Esquadra (polícia catalã).

No total, 92 locais foram fechados, de acordo com o Ministério de Interior, que declarou haver 33 policiais feridos e três pessoas detidas, sendo um menor de idade. A resposta policial à resistência pacífica de centenas de catalães ficou registrada em vídeos, que viralizaram e foram reproduzidos por jornais do mundo todo. Após o impacto das imagens, o ministério decidiu reduzir a força policial, segundo fontes do “El País”.

Com os braços estendidos para cima, os eleitores concentrados diante de centros de votação foram alvo, em várias ocasiões, de golpes de cassetete, disparos de balas de borracha — um homem foi levado às pressas para ser operado no Hospital Sant Pau, de Barcelona, por ter recebido um disparo no olho —, ou agredidos diretamente. Como a mulher que, apoiada no corrimão, dentro do Institut Pau Claris foi agarrada pelo braço por um policial, que a empurrou escada abaixo.

Apesar da violência, o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, só se pronunciou às 20h30m, onze horas depois das primeiras ações. O líder do conservador Partido Popular, que há seis anos vem se mostrando contrário a negociar, disse que mantém a porta aberta para o diálogo, e convocou os partidos com representação parlamentária “para refletir sobre o assunto”.

— Hoje (ontem) não houve um referendo de autodeterminação na Catalunha. O estado de direito mantém sua fortaleza e sua vigência. A Espanha é uma democracia madura e avançada, amável e tolerante, mas também firme e determinada — declarou Rajoy, citando “os que promoveram a ruptura da legalidade e da convivência” como únicos responsáveis pelo que aconteceu na Catalunha. — Fizemos o que tínhamos que fazer.

Pablo Iglesias, representante do Podemos, se disse repugnado com a atitude do PP, chamando seus membros de “inúteis, corruptos e hipócritas”. Já o líder do partido Cidadãos, Albert Rivera, pediu eleições antecipadas na Catalunha. Por sua vez, o socialista Pedro Sánchez, líder da oposição, afirmou estar em profundo desacordo com o uso da força policial mostrada ontem na Catalunha:

— O governo superou todos os limites de sua incapacidade. 

MOSSOS SÃO ACUSADOS DE PASSIVIDADE

Descrevendo um panorama diferente do registrado pelas câmeras, Soraya Sáenz de Santamaría, vicepresidente do governo, afirmou que a polícia agiu com “profissionalismo e proporcionalidade, e não foi contra as pessoas e sim contra as urnas”.

— Os cidadãos viram como sua liberdade foi defendida e como a convivência foi restabelecida — declarou a número 2 do governo.

A palavra “proporcional” para justificar a atuação policial também foi ouvida da boca de alguns socialistas, como o prefeito de Lleida, Àngel Ros, ao tentar colocar panos quentes na notícia do ataque cardíaco de um homem de cerca de 50 anos diante do comportamento da Polícia Nacional no bairro de Mariola. O líder socialista na Catalunha, Miquel Iceta, no entanto, tentou se distanciar:

— Se Rajoy e Puigdemont não se veem capazes de restabelecer a normalidade e abrir a porta para uma negociação, será melhor que renunciem ou convoquem eleições antecipadas.

Os pedidos de renúncia vieram de diferentes frentes. Artur Mas, ex-presidente da Catalunha, afirmou que Rajoy deveria renunciar imediatamente por “perder as estribeiras” e “dar uma imagem dramática ao mundo”. O mesmo pediu Ada Colau, prefeita de Barcelona, que não é independentista mas defende a autodeterminação dos catalães.

— Se Rajoy não renunciar, as forças devem se organizar para dar uma resposta política. Não entendo o extremo ao que o governo espanhol chegou. É inconcebível que esteja chegando a este limite — disse a prefeita que, no Twitter, chamou Rajoy de “covarde por inundar Barcelona de policiais”.

Os Mossos D’Esquadra, por outro lado, foram acusados de passividade, desobediência e incumprimento de seu dever constitucional e o Ministério Público prometeu que haverá consequências por agirem como uma “polícia política”. Como já se sabia que as filas nos colégios eleitorais começariam a se formar por volta das 5h, a tarefa dos agentes era, antes das 6h, desalojar e fechar os centros de votação. Geralmente em dupla, no entanto, eles se apresentavam, informavam que tinham que apreender urnas e clausurar o local e perguntavam, educadamente, quem era o responsável. Diante da resposta coletiva de que não havia responsáveis, registravam a ocorrência e se despediam. Às vezes eram aplaudidos e outras, inclusive, recebiam flores.

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